segunda-feira, 16 de maio de 2011

Declaração do dízimo, “indulgência” para títulos eclesiásticos?



A igreja evangélica no Brasil cresceu dando ênfase a evangelização e o ensino da Palavra de Deus. Este crescimento acelerou-se a partir de 1910, com a chegada do Pentecostalismo, trazido por alguns irmãos que haviam experimentado a chama do Movimento Pentecostal, dentre os quais cito Daniel Berg e Gunnar Vingren, fundadores das Assembleias de Deus no Brasil.

Ao olhar para o início desse movimento, vemos de fato um destaque na obra de evangelização. Cada crente tinha prazer em compartilhar sua fé, em sair para as ruas anunciando a mensagem do evangelho, de porta em porta, entregando folhetos, realizando cultos ao ar livre na casa de algum irmão, além do evangelismo nos trens, nos ônibus, nas praças e no próprio templo com a extinta “boca de ferro”, um aparelho que amplificava o som levando a mensagem às residências mais distantes. E o resultado era rápido, pois muitas pessoas se convertiam, apesar das perseguições enfrentadas por parte do catolicismo romano radical, especialmente no interior do estado, nas primeiras décadas do evangelismo pentecostal.

E a medida que os trabalhos iam se desenvolvendo, alguns modelos de liturgia iam sendo implantados, tais como o cântico congregacional (a edição da harpa cristã como hinário oficial ajudou na difusão e prática desse modelo), a leitura bíblica oficial, a pregação, a implantação de conjuntos (uma marca das ADs são os ‘conjuntos’ de mocidade, de senhoras, infantil, etc, que cantam sempre nos cultos) e o recolhimento de dízimos e ofertas, dentre outras atividades litúrgicas.

O lema desse movimento sempre foi: Jesus Cristo salva, cura, batiza com Espírito Santo e em breve voltará.

Mas, de um tempo pra cá, talvez pela influência do neopentecostalismo, temos presenciado a mudança de foco. As igrejas tendem a ser mais estruturadas fisicamente buscando um melhor conforto para seus membros, e isso tem levado alguns líderes à busca exagerada pelo requinte e ostentação. Sem falar nos salários pagos aos pastores e membros de diretorias. Se pegarmos uma planilha de gastos, coisa muito difícil de se conseguir em algumas administrações, vamos ver, por exemplo, que a obra de evangelismo e missões não tem primazia nos investimentos da igreja atual.

Como se isto não bastasse, essas mudanças estão sendo refletidas nas práticas litúrgicas e também nos deveres que são impostos aos membros das denominações. Sabemos que o dízimo e as ofertas alçadas é uma doutrina bíblica praticada pelos assembleianos e outras denominações de forma livre, de acordo com a fé e a consciência que cada crente tem da necessidade de ser participante na construção desse seguimento religioso. Sem que seja necessária a imposição, a declaração de dizimista, como obrigação para ser membro. Se assim fosse, teríamos a volta das indulgências, com outra roupagem, pois as indulgências tinham como objetivo conceder perdão, atenuar a gravidade de uma falta, ou remir os pecados dos fiéis da igreja.

E a Assembleia de Deus, que este ano comemora seu centenário, não precisou dar ênfase à doutrina dos dízimos e ofertas, não precisou instituir declaração de dízimo, pois ela cresceu e se desenvolveu com as contribuições financeiras de seus membros que acreditavam no trabalho e o faziam com amor e dedicação. Mas...



Existem convenções locais que colocam a declaração de dízimo como uma das prerrogativas para a consagração ao diaconato, presbitério e ministro (evangelistas e pastores). E essa prerrogativa, em algumas análises, fica acima de qualidades morais como: bom testemunho, conhecimento bíblico, preparo teológico e espírito de liderança. É como se as condições colocadas pelo colegiado apostólico, em Atos 6, não fossem suficientes, “boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria”.
Por exemplo, no estatuto da IEADERN, o candidato ao diaconato deve “ser fiel, comprovadamente, nas contribuições para a igreja” (Art 53) além de outros requisitos apresentados.

Em outras palavras, se o candidato cumprir com todas as condições: ter vocação divina para o diaconato; ser batizado com o Espírito Santo, ter conhecimento das Sagradas Escrituras, ser obediente à doutrina e aos usos e costumes da IEADERN, ter testemunho pautado nos princípios das Sagradas Escrituras; ter, no mínimo, três anos como auxiliar de trabalho” e não apresentar pelo menos 6 (seis) comprovantes de declaração de dízimo, não pode ser consagrado.

Minha análise é, será que não estamos mudando o foco? Será que não estamos nos distanciando do real objetivo da igreja?

Acredito na doutrina bíblica do dízimo, ensino e pratico sob a ótica da generosidade. Entretanto, nunca declarei, e não creio ser correto exigir declaração, como se fosse confissão de fé, ou profissão de fé.

Infelizmente nosso Centenário está marcado por pretensões econômicas, pretensões financeiras que embotam a ênfase missionária e evangelística dos primeiros dias pentecostais.

Em Cristo,
Cláudio Ananias

5 comentários:

  1. Pense num homem de coragem, esse Ananias...
    Iniciei a leitura e fiquei incrédulo para acreditar que você iria citar "IEADERN", mas como se vê, não hesitou.
    Parabéns pela brilhante desenvoltura dos fatos!
    Concordo em gênero, número e grau em todos os argumentos.
    No mais, esse artigo 53 do estatuto é verdadeiramente um absurdo à luz da bíblia, como você mesmo já comprovou, embora acredito que isso não seja exclusividade da IEADERN.
    Continue assim, a igreja precisa urgentemente de homens dotados de cárater e bom senso.

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  2. Olá Flavio.

    A IEADERN, de certa forma, tornou pública essa condição, ao disponibilizar o estatuto em seu site, confirmando assim a mudança de foco que tenho analisado.

    Talvez, a maioria das pessoas que leu o Estatuto não tenha dado destaque à esse detalhe. Por isso, minha análise tenta fazê-lo.

    Também acredito que não é esclusividade nossa. Vamos ver até onde vai dar o caminho dessa carruagem centenária.

    Até breve, e parabéns pelo site do Kerigma.

    Cláudio Ananias

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  3. paz do senhor Ananias!

    li seu artigo Declaração do dízimo, “indulgência” para títulos eclesiásticos e achei excelente!

    você é realmente corajoso, rsrsrs

    mas ficou muito bom seu comentário a respeito desse assunto, que poucos tem coragem de falar,
    porém é preciso, não podemos nos conformar com tais situações, algo que deveria ser espontâneo e voluntário, se tornar algo regulamentado e passível de punição aos não declarantes, porque vetar um ministério por causa deste fato,não deixa de ser uma punição,e extrapola os limites.

    gostaria que você quando pudesse postasse seu ponto de vista sobre aqueles irmãos que almejam o episcopado e não podem exerce-lo por causa dos antecedentes criminais!

    abraço e fica na Paz!!!!!!!!

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  4. Graça e Paz, Sanderson

    Estava pensando em dar continuidade a este tema, enfocando outras implicações como esta que você colocou. Vou analisar com cuidado e em breve colocarei outra postagem a respeito.

    Até breve.

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  5. estava procurando algo sobre esse assunto e acabei achando o seu blog, que por sinal é muito bom.

    Graça e paz em cristo Jesus.

    concordo com tudo que foi escrito aqui, pois sou membro da IEADERN e me sinto constrangido com essas coisas absurdas que foram adicionadas para quem deseja episcopado, e ainda vou mais além onde está escrito que na Bíblia sobre essa hierarquia eclesiástica que vc passa 3 a os como auxiliar, depois passa pra diácono, mais tantos anos passa pra presbítero, mais tantos anos a evangelista, mais outros tantos anos a pastor? acaso não está escrito na Bíblia assim: efésios 4.11 (E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores,
    Efésios 4:11) e porque essa subida de cargos eclesiástico? fica a pergunta pra quem puder me responder.

    Em Cristo,
    Jucielde Pereira
    pelas misericórdias de Deus ainda continuo de pé.

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