terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Contribuição versus Dízimo - Princípio versus Preceito



Antes de discorrer sobre este assunto, vamos ler esta frase: “Os preceitos mudam e até desaparecem, todavia, os princípios são imutáveis e permanentes” (Lições Bíblicas, CPAD, 1º Trimestre de 2012, pág. 65).

Existem dois versículos na Bíblia, muito usados quando se fala no assunto dízimos e ofertas. Um está no Antigo Testamento, o outro está no Novo Testamento. Um é o texto de Malaquias 3.10, que diz: “Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente para a recolherdes”. O outro é o de 2 Coríntios 9.7, que assim está escrito: “Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria”.

Considerando que o versículo de Malaquias está inserido no contexto da Lei, ou seja, ainda no vigorar do período mosaico, é clara a percepção de que ele não se refere a uma prática imutável e endereçada a igreja, pelo contrário, ele está direcionado à nação de Israel (veja a expressão “sim, toda esta nação” vers. 9). Outra consideração a fazer sobre este versículo é que a repreensão concernente ao dízimo está do lado da repreensão concernente às ofertas (vers. 8). O povo não estava dizimando e também não estava cumprindo com as ofertas listadas na lei de Moises, descritas em Levítico 1 a 3, como por exemplo a oferta de holocausto (com gado), a oferta de manjares e a oferta de sacrifício pacífico (com outros alimentos). Fica claro então, que o versículo de Malaquias 3.10 reforça uma prescrição, um preceito, uma ordem, uma lei, no caso, do antigo pacto (Lv 27.32; Dt 12.17, 14.22). Lembra da frase inicial? “os preceitos mudam e até desaparecem...”.

Agora, considere a segunda parte daquela frase: “... os princípios são imutáveis e permanentes”. Isso nos faz lembrar das referências bíblicas para as contribuições anteriores ao preceito do dízimo. É o caso de Caim e Abel que trouxeram oferta ao Senhor (Gn 4.3-5), seguindo o princípio da contribuição e não o preceito do dízimo. Abraão contribuiu com o dízimo de tudo concernente ao que readquiriu após a batalha contra os reis (Gn 14.16,20), seguindo o princípio da contribuição e não o preceito do dízimo. E Jacó (Gn 28.22) também asseverou que contribuiria com o dízimo de tudo que Deus lhe desse, seguindo o mesmo princípio da contribuição e não o preceito do dízimo, tendo em vista que este preceito não existia.

O versículo de 2 Coríntios 9.7 aponta para o princípio da contribuição, “cada um contribua segundo propôs no seu coração”. Abel propôs contribuir, Abraão propôs contribuir e Jacó também propôs a mesma coisa, pois o princípio da contribuição era vigorante antes da Lei, antes do preceito. Assim escreveu Salomão, segundo este princípio: “Honra ao Senhor com a tua fazenda, e com as primícias de toda a tua renda” (Pv 3.9). Primícias não é a mesma coisa de dízimo, primícias diz respeito aos primeiros frutos, aos primeiros lucros, ou seja, devemos pensar em investir primeiramente na obra de Deus, na causa do mestre, de acordo com aquilo que propormos em nosso coração. Salomão baseou-se no princípio e não no preceito. Se fosse da outra forma, assim estaria escrito: “Honra ao Senhor... com os dízimos de toda a tua renda”.

Ao destacarmos as palavras-chave do texto paulino (2 Co 9.7), temos: “Cada um contribua (CONTRIBUIÇÃO) segundo propôs (DISPOSIÇÃO) no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria”. Aqui não há referência ao dízimo (preceito), mas ao ato de contribuir (princípio).

Quem entrega o dízimo pensando na regra, no preceito, corre o risco de estar fazendo por medo de, ao não fazê-lo, tornar-se um ladrão, pela expressão de Malaquias “vós me roubais” (Ml 3.8), e sabemos que os roubadores não herdarão o reino de Deus (1 Co 6.10). Assim, esta prática estará sendo feita “com tristeza ou por necessidade”. Já quem contribui pensando na liberdade de escolher o valor de acordo com o princípio, seguindo sua convicção e proposição, tende a fazê-lo “com alegria”.

E o nosso mestre supremo, o Senhor Jesus? O que ele asseverou a respeito do assunto? Em quê ele se baseava? No preceito ou no princípio? É só observar sua repreensão aos escribas e fariseus:

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, (radicais ao atentar para a letra, a lei, o preceito) e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; (esqueciam-se dos princípios fundamentais de moralidade) deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas (contribuir segundo a forma da lei, por estarem naquele contexto, mas baseados no princípio que disciplina a contribuição)” (Mt 23.23).

Assim, creio que posso contribuir propondo em meu coração entregar 10% (dez por cento), 20% (vinte por cento), ou qualquer outra quantia, não com tristeza, ou por necessidade, mas consciente do amor de Deus para comigo, pois contribuirei com alegria.

Um bom esquema para orientar este assunto:




Por Cláudio Ananias

6 comentários:

  1. Prezado irmão Cláudio Ananias,

    A paz do Senhor. Muito boa a sua explanação. Sugiro que o irmão a amplie, se possível, considerando também o que está escrito em Hebreus 7 e Gênesis 14, passagens que enfatizam a atemporalidade do dízimo.

    A paz do Senhor. Saudades.

    Ciro Sanches Zibordi

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    1. Graça e Paz Pr. Ciro,

      Obrigado pelo comentário. Assim que possível, vou tentar discorrer sobre sua sugestão. Vou começar a meditar mais profundamente nesse tema da atemporalidade do dízimo e das outras formas de contribuição.

      Também temos saudades. Uma conversa salutar e uma mensagem cristocêntrica sempre deixa saudades nos cristãos genuínos.

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  2. Caro Ananias, a paz do Senhor.

    Este é o estudioso das escrituras que estou acostumado a ver, discorrendo sobre assuntos espinhosos tomando como regra única e imutável a Palavra de Deus.

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    1. Paz do Senhor Janilson,

      Obrigado pelas considerações. Conto com sua amizade e conselhos ao trilhar os caminhos espinhosos, mas gratificantes, que a vida cristã nos apresenta.

      A Palavra de Deus sempre será nossa regra.

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  3. Graça e paz de Cristo!
    Grande Ananias, não há dúvidas que sua análise foi convincente e edificante.

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  4. Pr Cláudio Ananias, parabéns pelo estudo e pelo esforço em esclarecer pontos tão espinhosos no entendimento humano.
    Com todo respeito ao Pr. Caro que cita a atemporalidade de Hebreus 7 e Gn 14., gostaria de dizer que tanto o autor de Hebreus quanto o autor de Genesis não estão ali doutrinando a igreja do Senhor Jesus. Tais passsgens bíblicas não tinham como finalidade criar um mandamento ou ordenança para os cristãos. Qualquer princípio ou regra que fere ou diminui o sacrifício de Jesus é passivo de questionamentos. Pois falando Cristo, calam-se os proferas, fecha-se as escrituras encerra-se princípio e fim, pois Ele é eterno, Ele está acima das Igrejas, das doutrinas de homens e acima até mesmo da própria escritura. A minha justiça e minha razão, o meu sacrifício e o meu dízimo de nada servem diante da Cruz de Cristo.
    Fique na paz amado pastor.

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